O primeiro herói foi Adão


Adão Antônio Brandão Portella, português, é considerado o maior atleta da história do Vasco, como o que mais conquistou medalhas em sete diferente modalidades. Adão Brandão obteve seu maior sucesso no recém-chegado futebol, quando marcou o primeiro gol do Club de Regatas Vasco da Gama na derrota por 10×1 para o Paladino F.C.

Matéria publicada no Lance!, de autoria de Ricardo Linhares:
“Rio de Janeiro, 21 de agosto de 1898. Em homenagem ao quarto centenário do feito do navegador Vasco da Gama, que descobriu o caminho marítimo para as índias, alguns rapazes, todos portugueses ou filhos de portugueses, resolveram fundar um clube de regatas. Assim, nasceu o Club de Regatas Vasco da Gama.
No dia seguinte, do outro lado do Oceano Atlântico, mais precisamente na cidade de Penafiel, em Portugal, o pequeno Adão Antônio Brandão completava dois anos de idade. Nessa época, Tuja, apelido dado pela família, nunca
ouvira falar no Rio de Janeiro, muito menos poderia imaginar a dimensão do feito daqueles rapazes que haviam acabado de fundar o Vasco da Gama. Bom, então o que essas duas histórias têm em comum?
Para explicar a ligação, nada melhor do que as simpáticas Dona Rosinha, 91 anos, viúva de Adão (falecido em 1978), e Regina Maria, uma das duas filhas do casal.
Em 1912, como castigo por se dedicar mais aos esportes do que ao estudo, Adão foi “deportado” para o Brasil pelo pai, Francisco Manoel Pinto Brandão, que era juiz de Direito, para trabalhar na fábrica de calçados que pertencia a seu tio. Pouco depois de chegar ao Rio de Janeiro, seus colegas de fábrica lhe apresentaram ao clube no qual se consagraria como o maior atleta de todos os tempos, o Vasco relembram, sem esconder o orgulho e a saudade.
Foi paixão à primeira vista. Sempre esbanjando amor à camisa, Adão defendeu o Vasco em sete modalidades esportivas. Ajudou a criar a seção de futebol, fez o primeiro gol da história do clube, participou do primeiro título na primeira divisão… Bom, vamos por partes.
No atletismo, Adão foi um bravo. Certa vez, com a contusão do atleta que disputaria as provas de curta distância, foi convocado às pressas e prometeu que superaria Malagutti, o então campeão brasileiro dos 200 metros rasos. Quase todos duvidaram. Dito e feito! Treinou com afinco, superou limites e chegou lá, surpreendendo àqueles que não conheciam seu amor pelo Vasco.
No remo, foi imortal. Campeão carioca em 1919 e 21, ajudou o clube a conquistar outros inúmeros troféus e medalhas. Segundo Dona Rosinha, era o esporte que mais gostava, além de ter sido o primeiro que teve o prazer de praticar pelo Vasco.
Agora sim, voltemos ao velho esporte bretão. No futebol, pode-se dizer, sem medo de errar, que Adão foi um traço de união entre Brasil e Portugal. Em 1915, jogava constantemente pelo Lusitânia, clube fundado pela colônia portuguesa. Mas vestir outra camisa não lhe agradava, e a solução foi participar ativamente da fusão do Lusitânia com o Vasco, concretizada em tempo recorde.
Em 1916, o Vasco ingressou na terceira divisão carioca. A estréia não poderia ter sido pior. No dia 3 de maio, o Paladino F.C. venceu por 10 a 1. O gol de honra, quando o placar já apontava 8 a 0, foi marcado por Adão, de bico de chuteira, desviando um chute torto que veio da direita.
Mesmo com o insucesso, o Vasco foi crescendo ano a ano, assim como sua torcida. A popularidade e a força do clube aumentaram quando negros, mulatos, caixeiros e comerciantes foram aceitos no time de futebol. Assim, chegou ao primeiro título, em 1920: campeão carioca de segundos quadros.
Adão estava lá. Além de participar na campanha de 20, ajudou a fazer a cabeça dos que ainda defendiam a idéia de que apenas “garotos de família” deviam jogar futebol. Resumindo: seu papel ativo ultrapassou a prática e alcançou a democratização do esporte.
Justiça seja feita, nessa época Adão não tinha olhos só para o Vasco. A madrinha do time de futebol, filha da sócia número 1 do Vasco, Avelina Fernandes Portella, chamava a sua atenção. O nome?
-Tornei-me madrinha em 1921, com 13 anos. Meu pai, Alberto, era da diretoria e minha mãe, Avelina, fez a primeira bandeira do Vasco e tecia carapuças de crochê para os atletas. Acabou tornando-se sócia numa época em que só homens tinham tal privilégio – recorda Rosa Portella Brandão, a Dona Rosinha.
Só que o namoro ficou para mais tarde. No ano seguinte, em 22, o Vasco foi campeão da Série B carioca (segunda divisão). Adão não participou da conquista porque estava em Portugal, visitando a família. Em 23, veio o inesquecível título carioca logo no ano de estréia na primeira divisão. Adão atuou apenas do segundo jogo vitória de 3 a 1 sobre o Botafogo. Essa passagem é relatada pelo próprio punho, num livro guardado com carinho pela filha Regina: “Em 22, estava em Portugal. Quando voltei, encontrei o Vasco
na primeira divisão, mas devido ao preparo físico, eu só pude ficar como reserva… …como na época não havia distensão muscular, os reservas quase não jogaram!”, contou Adão.

Porém, não foi a forma física que o fez abandonar campos, raias, pistas e demais canchas esportivas (também praticou natação, pólo-aquático, tiro e tênis de mesa, sempre pelo Vasco). E sim, a idéia de se casar com Rosa, com quem, em 24, finalmente começara a namorar.
A família vascaína compareceu em peso ao casamento de Adão e Rosa, no dia 22 de setembro de 1927. Cinco meses antes, todos, inclusive os noivos, se encontraram em outra solenidade, a de inauguração de São Januário, então maior estádio da América Latina. Um símbolo de orgulho da história do clube.
Adão constituiu família e continuou ligado ao Vasco, tendo sido tesoureiro e diretor do clube. Após o nascimento das filhas Yolanda e Regina, passou a ser apenas torcedor. Sempre presente aos estádios, vibrou com as inúmeras conquistas do “Expresso da Vitória”, nas décadas de 40 e 50.
Quando sua mãe, Dona Maria da Graça, veio ao Brasil pela primeira vez, na década de 40, Adão logo ensinou-lhe a gostar do Vasco. E a dupla passou a ser figurinha carimbada nos jogos em São Januário e nas regatas na Baía de Guanabara.
Aliás, transmitir seu amor pelo Vasco foi tarefa que cumpriu sem falhas. Além das duas filhas, Dona Rosinha tem quatro netos e cinco bisnetos (o sexto está a caminho), que formam um time de vascaínos:
-O Duda está com 15 anos e não perde um jogo do Vasco - diz, referindo-se ao neto Zé Eduardo.
Será preciso procurar o Duda para falar da decisão da Taça Libertadores, na próxima quarta-feira, contra o Barcelona, de Guayaquil? Que nada! Fala, Dona Rosinha.
-Acho provável de o Vasco ser o campeão. Em todo o caso, vou prender um lenço no pé da cadeira para amarrar o Barcelona. Minha mãe fazia isso nos jogos importantes e sempre dava certo - contou Dona Rosinha, que ainda assiste a todos os jogos do Vasco e confessa que fica nervosa durante os 90 minutos.
Com tantas e tantas passagens de amor e dedicação ao clube, será que dá para definir o que o Vasco representa na vida dessa família. Dona Regina responde primeiro:
-O Vasco faz parte do dia a dia de nossa família, que não existe sem as recordações do Vasco – filosofa.
-E também representa uma saudade muito grande. Inclusive, conhecer o meu saudoso marido interrompe Dona Rosinha.
Falta saber o que o Vasco representava para Adão Antônio Brandão. Nesse momento, a viúva do maior atleta do Vasco em todos os tempos é traída pela emoção:
-Representava tudo. Pelo Vasco, ele era capaz de qualquer sacrifício. Ele sempre foi Vasco, nunca teve simpatia por qualquer outro clube. Ele era Vasco, Vasco, Vasco, até morrer. O Adão ficou doente em 1971, teve que retirar um coágulo no cérebro. Quando se recuperou, logo foi recortar coisas sobre o Vasco para fazer álbuns sobre o clube. Quando a doença se agravou, passou a se esquecer dos tempos da fábrica, da infância em Portugal. Mas do Vasco, isso nunca! recordou emocionada, tentando segurar as lágrimas.
Hoje, certamente, também é dia de festa no céu.”